Sabemos que o desenvolvimento emocional e comportamental da criança é moldado a partir de múltiplas influências e um estudo - com mais de 10 mil crianças australianas acompanhadas - reforça com clareza a importância dos primeiros anos de vida e da forma como os pais exercem sua função educativa. Os dados revelam que fatores de risco identificados entre 0 e 5 anos explicam cerca de 30% dos sintomas externalizantes (como impulsividade, agressividade e desobediência) e 18% dos sintomas internalizantes (como retraimento e ansiedade) manifestados posteriormente pelas crianças. Entre os principais preditores de sintomas externalizantes, destacam-se as práticas parentais autoritárias, especialmente aquelas que envolvem disciplina punitiva ou desproporcional. Crianças submetidas a essas experiências tendem a apresentar maior desregulação emocional e dificuldades na interação social, o que pode se agravar com o tempo, caso não haja suporte adequado. Isso nos chama atenção para a importância de considerar o ambiente familiar e a qualidade da interação cuidadora como aspectos fundamentais na avaliação e intervenção neuropsicológica. Além disso, a pesquisa reafirma que as intervenções precoces são determinantes. Quando pais são orientados sobre formas mais sensíveis e responsivas de educar, com foco no vínculo, na escuta ativa e no acolhimento das emoções, o cérebro em desenvolvimento da criança responde com maior capacidade de autorregulação e resiliência. Não se trata de “falta de limites”, mas de saber como estabelecê-los com afeto, consistência e intenção educativa. A maneira como os cuidadores reagem às dificuldades comportamentais molda o comportamento da criança e também sua arquitetura cerebral. Por isso, ao avaliarmos uma criança com sintomas comportamentais ou emocionais, devemos sempre considerar o contexto em que ela está inserida; não para culpabilizar os pais, mas para ampliar possibilidades de cuidado. Esse estudo amplia nosso compromisso com uma prática baseada em evidências e centrada no desenvolvimento infantil como um processo relacional. Formar pais mais conscientes é também uma potente estratégia de prevenção em saúde mental. Referências: Bayer, J.K., Ukoumunne, O.C., Lucas, N., Wake, M., Scalzo, K., & Nicholson, J.M. (2011). Risk factors for childhood mental health symptoms: national longitudinal study of Australian children. Pediatrics, 128(4), e865–e879.